27/05/11

‘Ode a poesia!’ de jairo alt

Ode a poesia!

Vejam amigos, a cara dessa poesia!
Agora observem com atenção
Essa mentirosa, meretriz de quinta
Maquiavélica, ardilosa, boa pinta
É puro embuste, auto-enganação.

Senhoras e senhores vejam vocês
Essa ninfa trapaceira, macabra
Diz-se enigmática, metafórica
Às vezes ela nos vem eufórica
Vezes ela nos vem dócil, sorrateira
E nem adianta abracadabra

Ele só vem quando dá na telha!
Te pega pela jugular, pela fraqueza
Faz por a mão na massa, nos seios
Entre as coxas, em teus meios
Faz perder o rumo, te castiga.

Adoece quem nela reinventa o amor
Mente quem diz que a domina
Mente quem conta que abomina
É bicho ruim que não desgruda
Não adianta reza, banho de arruda.

Mau do século, mau do bon-vivant!
Mau do poeta, da musa, do suicida
Da lavadeira, do poodle, do padre
Da paz, do ancião, do confrade
De toda raça, toda humanidade.

E há quem diga que ela é a clave
Que ela edifica, que ela nos salva
Há quem nela crie o subterfúgio
Há quem a confie corpo e alma
Tem quem só a ache no escuro.


Que lírica que nada, meu senhor!
Essa aí, essazinha, é chave-de-cadeia
Não marca hora, independe do sexo
Vai logo ao tema, deixa-o desconexo
Essa, essa mesmo, é puta rampeira.

Vejam mais uma vez essa poesia!
Esse rosto limpo, esse ar jocoso
Essa perna robusta, cintura-violino
É a tentação do capeta, seu moço
É a peste moldada em papel fino.

Mais que pureza porra nenhuma!
Sabem quantos poetas ela matou?
Sabem quantos amores ela já traiu?
Quantos versos ela despedaçou
E quantas rosas foram ditas em vão?

Essa mesmo, que versa das rosas!
Vive de braços dados com tercetos
Rima, métrica, mote, escansão
Tônicas, quadras, haicais, sonetos
E mais meia dúzia de rapagão! 
Merece é ser apedrejada, queimada!
Atirada da prancha, riscada do papel
Deletada das praças, dos livros
E que viva eternamente no mausoléu
Longe de cadernos, diários, papiros...

Essa que agora te mostro com verdade
Dando a cara à tapa, mostrando-se nua
Que vai às guelras do tempo, no beco da rua
Que corre solta na veia, livre feito sabiá...

...É filha minha, não hei de matar!

13/02/10

mordaz




preciso respirar


as mentiras suaves

que teus olhos contam



– não olha agora!–



não me encara assim

com esse afeto

sou só uma alucinação



– não olha agora!–



teu olhar arde;

quando desliza assim

pungente na minha pele



– não olha agora!–



não abre os olhos

não quero teus olhos

só o beijo que

deixa na língua

esse prazer mordaz...

10/12/09

Parca






alguém vaticinou

em eras perdidas,

entre sonhos e

quimeras ,

entre uma volta e outra

do fuso

que não nos veríamos jamais.



trapaceiro decidi

vou vendado



fecha os olhos

o vaticínio se mantém

e você não terá me visto

nem eu também



pronto

problema resolvido

sucesso garantido

o resto era acessório



tua pele e a minha

tem um mapa

que conheço bem



vou deixar escritas

instruções

em braile

gravadas na pedra



responde,

e qualquer dia te pego

numa parede qualquer




23/02/09

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